Exposição de pintura “L’Affair Casta Suzana / Caleidoscópios em cadeia”, de Álvaro Manadelo

:: Dia 1, quarta-feira
Galeria da Cave (De 1 a 15)

INAUGURAÇÃO: dia 3, às 21h30

 

“A apreensão da natureza de uma obra surge unicamente após a compreensão dos mecanismos que a produzem”
(Michel Onfray)

Nota biográfica: Não me lembro de ter nascido. Soube, mais tarde, que: nesse ano morreu Abel Salazar, António Pedro e Matisse pintavam respectivamente, “Rapto na paisagem povoada” e “A alegria de viver”, provavelmente ao som da Vie en Rose de Edith Piaf, que estava no top; em praias distantes a moda impunha o bikini – onde os americanos estoiravam uma bomba atomica – Nikos Kazantzakis publicava “Zorba”, o grego e Herman Hede recebeu o Nobel que ambos vi muito mais tarde. Bastante antes de Etienne de la Boétie senão a desgraça teria sido eventualmente muito pior. Prova material do infausto evento tive, até há pouco na minha posse, um bilhete postal que reproduzia: a fachada da Igreja nesse ano inaugurada e um retrato a meio corpo do padre no canto superior direito como que tutelando-a; disseram-me que foi ele quem me baptizou, embora ilegalmente – conf. legislação da época – me tivessem aberto cadastro de cidadão na freguesia de toda a restante parentela que sobreviveu incólume a duas guerras mundiais e à Peste da Pneumónica.
Tive uma infância com quilómetros de praia só para mim e para a mini-família, desde o Forte de Carreço até ao Sanatório da Gelfa; fiz a 4.ª classe com distinção e de tão confidante só a admissão ao liceu. Desenhava bem garrafas com um dos quadros da moldura da lousa, por culpa da qualidade e do afiamento dos lápis a canivete, sombreava muito mal. Mas o desenho a lápis que não a cores – um luxo! – contava pouco nas provas de aferição e assim continuou, anos a fio, na companhia da música que só estorvavam as tardes de farra; aliás da música importante era acertar o compasso com o triquelitraque de todos; com a pintura uma relação de proximidade a caminho de casa – nos Guindais – com o exposto no Salão Silva Porto, na Rua de Cedofeita. Frequentei jovem o S. Lázaro, pouco o Piolho e já nos vinte e tais o Magestic, os baixos do Rialto ou as galerias da confiança por outras razões que não dispiciendas, mas mais ligadas a artes volumétricas.
Lembro-me de momentos de êxtase artístico: o fato e a braçadeira da Comunhão Solene e do horror da camisa verde escura da MP sem nunca ter tido os calções beje que o meu pai se recusava a comprar; desfilei, contudo, com uns emprestados, num 1.º de Dezembro, Clérigos a baixo e com muito menos garbo que, anos depois, com um camuflado no Cais da Rocha Conde de Óbidos. Tive, devo confessá-lo, uma vida colorida que só escureceu há uns anos atrás: se a paleta multivariada e, às vezes, até audaz só depois do apagão, relativamente recente, procurei alguma luz numas mini-telas em branco. O resultado possível, dadas bastantes condicionantes, está visível, com mensagem nem tolhida ou encolhida, sobretudo com destinatário abrangente e vocação universal. Se inteligível: óptimo! Porque o disse com razoabilidade. Apenso há um livro de reclamações que serve também had hoc para outras apreciações dignas de registo – como são todas, menos as adulações porque nem as mereço e nada posso retribuir; quiçá a minha aposentadoria não seja tão honrosa como a do “Elogio da vida monástica” do Jorge de Sena, daí não ser expectável uma reedição salobra dum Fra angélico, nem uma aversão ao verdemondrianista; pinto com o mesmo empenho de anteontem ao plantar um medronheiro e um azevinho, dos quais nem comerei os frutos, nem chegarei a ver os frutos vermelhos; com o mesmo prazer de ontem ao ouvir os “quadros de uma exposição”, os dois poemas e ó ‘divino poema’ do Scriábine, e hoje já ao som importune de um ou outro avião rasante, ter lido com arrepios de solidariedade – frutos da minha impotência/ impossibilidade interventiva “a potência de existir” do Michel Onfray – parei propositadamente, antes da quarta parte para poder escrever, de modo próprio, este memorando que – para já! – é o esquisso definitive da minha biografia artistic e – a escolha é vossa! – podem olhar para a lua ou para a ponta do dedo que a aponta i.e., também, passer pelo exposto como quem gasta tempo – que é irrecuperável e igual a: foi ou é.
O futuro é um conceito averbal – desejo, por vós, que tenham gostado do que viram.

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